Ditadura

“Nações fazem-se com as armas, porém conservam-se pela toga. Inoportuno será em qualquer período da história, a intromissão da força bruta sobre o diploma legal”. Com a frase imortal do poeta Rui Barbosa, assinalamos o evento que marcou os quarenta anos da Revolução de 1964, reunindo algumas das vítimas do regime militar na cidade de Patos, despertando a necessidade de uma retrospectiva, objetivando o resgate de elementos que testemunharão os capítulos que não devem ser esquecidos, para provar que a força bruta nada mais gera do que o sentimento de violência e desrespeito as instituições.

Tudo surgiu na democrática eleição do prefeito Olavo Nóbrega, em plena ditadura, quando jovens ousados deflagraram um corajoso movimento em prol de uma candidatura oposicionista aos governos: federal e estadual, conseguindo uma esmagadora vitória. Na seqüência dos seus ideais, passaram a dar suporte a fundação de uma célula comunista, aglutinando para as suas hostes vários blocos estudantis, com tendências de direita, esquerda e centro, sem falar nas constantes reuniões com operários objetivando divulgar as diretrizes daquilo que anunciavam como direito à igualdade.

Sintetizavam a liberdade em declarações fortes e coerentes: “a pior democracia é melhor do que qualquer tirania”; “no voto direto, secreto e nominal, somente a consciência manda”. Nesta época, a Câmara Municipal de Patos apresentava um elenco dos mais preparados com seis advogados entre os nove integrantes dois dos quais inseridos no grupo dos simpatizantes da esquerda, mal visto pelo Poder: Marcone Sobral e Polion Carneiro. Os demais eram: Djalma Marques, Marcos Nogueira, José Marques Sarmento, Romero Nóbrega, Antônio Nunes Cavalcante, Suélio Marinho e Rui Gouveia.

O ponto de partida para a perseguição aos idealistas seria uma pichação ao Cemitério São Miguel, nos seguintes termos: “Abaixo à Ditadura”. Naquele tempo havia pena de morte para crimes políticos contra a soberania federal e tal iniciativa já era tida como um atentado à segurança nacional. Na Secretaria de Segurança Pública e Polícia Federal os jovens eram denunciados para em pouco tempo receberem a visita do Tenente Severino Ramos e do Agente Federal Floriano, encaminhando-os à delegacia e posteriormente ao Presídio do Roger, na Capital do Estado. A viagem de Kombi teve uma escala em Campina Grande e na primeira noite foi disponibilizado apenas um colchão de solteiro, o suficiente para abrigar as cabeças durante o sono, posicionando-se em círculo.

Vale registrar que no momento em que deixavam a delegacia, antes de ingressar no veículo que os levaria à Capital, os presos políticos foram perguntados por Euclides Guedes sobre a culpa e se queriam que ele os libertasse na ponte nova, já que detinha um grande número de homens bem armados, no que foi desaconselhado.

Os depoimentos aconteciam a qualquer hora, principalmente durante à madrugada, quando eram levados ao gabinete do General Samuel Correia, comandante da Guarnição Federal na Paraíba, com paradas no trajeto, objetivando criar um clima de terror e desta feita provocar maior vulnerabilidade aos depoentes.

Romero Nóbrega foi liberado no terceiro dia, graças à influência do seu pai Napoleão, Marcone Sobral no oitavo, beneficiado por uma atitude heróica de sua mãe, que foi a João Pessoa e conseguiu ser recebida pelo general. No mesmo dia aconteceu a liberação de Rui Gouveia. Outros foram soltos com duas semanas e somente permaneceu no cárcere em torno de dois meses, Polion Carneiro, Djalma Marques e Antônio Nunes Cavalcante, já que enfrentaram o Tribunal Militar e só conseguiram a liberação após serem considerados inocentes, no julgamento que registrou unanimidade na decisão, por sete votos a zero.

Alguns fatos interessantes são citados como conseqüência da perseguição política. Contou Marcone Sobral que enquanto estava no presídio perdeu a preciosidade dos seus livros de Latim, já que sua tia Luzia os jogou nas águas do Rio Espinharas por achar que eram publicações comunistas, atitude que tentava proteger o sobrinho.

Nos primeiros dias da prisão, Rui Gouveia exigia que uma lâmpada ficasse acesa na cela durante à noite. Marcone chegava a permanecer debaixo da cama também pelo temor de ser assassinado.

Djalma, que chegou a sofrer manifestações de tortura, mostrou como conseqüência da perseguição, atitudes de discriminação, principalmente nas demissões pelo simples fato de tornar-se conhecido como comunista, momento em que galgava de prestígio junto às empresas, entre as quais a Livraria Imperatriz do Judeu Simon Peres. Este fato o levou ao alcoolismo e por pouco não destruiu sua família. No seu desabafo pelo esquecimento da sociedade citou frases que refletem um certo tom de revolta pela falta do reconhecimento: “Nós fazemos parte desta história”; “Fui preso não como landrão, mas pelo simples fato de amar e defender a liberdade”; “Sou velho, mas não mataram a juventude da minha alma”.

Polion Carneiro, por sua vez, relembrou trechos poéticos no momento em que reverenciava a sua Carta de Alforria, expedida em maio de 1974: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”; “No poder não tem amizade”; “A pancada só se quebra no menor”; “Não tremi, não me ajoelhei, não recuei, não me curvou, resisti. Enfrentei as feras, os crocodilos humanos”.

Pelo sim pelo não, a história sempre reserva o momento do fato e o reconhecimento do ato e, em tempo, apesar da espera, finalmente temos a oportunidade de distinguir os bandidos encobertos como forma de referenciar os verdadeiros heróis.

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