Frei Damião


O maior Missionário do Nordeste sempre teve uma grande aproximação com o município de Patos, para onde convergia periodicamente e conseguia arregimentar verdadeiras multidões de fiéis. Nos seus últimos 32 anos de vida, Frei Damião teve a companhia assistencial de uma filha da terra, muito ligada aos trabalhos religiosos e que, só não chegou a ir para o convento por falta de condições financeiras para a compra do enxoval, época em que as dificuldades se avolumavam e seus pais, Gercino e Severina, eram pessoas desprovidas de recursos. Anita Meira estava concluindo o curso de enfermagem, momento em que foi convidada a peregrinar no roteiro do Frade Capuchinho para tratá-lo de problemas de saúde. A princípio estava prevista uma permanência de apenas seis meses, para a aplicação da vacina antibiogênica, paralelo ao acompanhamento de outros medicamentos, procedimento que a transformou em figura indispensável na trajetória do missionário.

Anita Meira, que mais tarde voltaria a residir na cidade de Patos, falou com orgulho das experiências vividas ao lado de Frei Damião e Frei Fernando, no Nordeste, em outras regiões do País e na Europa. Lembrava sempre de sua bondade, simplicidade, humildade, resistência e enorme fé em Deus. Recordava os momentos em que a doença tentava abatê-lo nos hospitais, inclusive na Capital Paulista, onde tudo parecia terminar e a conseqüente surpresa da recuperação que deixava médicos famosos, atônitos, surgia como num toque de mágica. Para se ter uma idéia do quanto passou a ser importante para o religioso basta lembrar que por diversas vezes ele escolheu a Capital do Sertão da Paraíba, para descansar ou recuperar-se de enfermidades, ficando hospedado na residência de Anita. Aqui também fez questão de comemorar os seus 50 anos de sacerdócio, em uma festa promovida pelos amigos.

Uma entrevista concedida por Frei Damião, a Revista Opinião, editada em Patos no início da década de 70 e assinada por Miriam Tourinho Diniz, justifica perfeitamente a admiração nordestina pelo saudoso missionário, desprovido de qualquer ambição, humilde por excelência e disposto a ajudar aos mais necessitados como grande missão de vida. Dentro da história de Patos vale registrar esse grande acontecimento, para que sirva de instrumento aos que não tiveram a satisfação de conhecê-lo e passarão a admirar o seu exemplo. A íntegra da entrevista:

Opinião – Se não fosse sacerdote, o que seria?
Frei Damião – Não sei não, porque desde pequenino entrei para o colégio, depois noviciado e, na idade de 11 anos, entrei para o apostolado. Nunca pensei em ser outra coisa.

Opinião – Quando não está trabalhando qual o seu passatempo?
FD – Não tenho não. Trabalho o ano inteiro, de janeiro a dezembro, nas missões. Não tenho tempo para divertimento.

Opinião – Qual o seu prato preferido?
FD – Nunca escolhi. Desde pequeno, me acostumei a comer o que me davam.

Opinião – Como foi a sua infância e como resolveu ser sacerdote?
FD – Desde pequeno freqüentava a igreja, era coroinha. Nasci assim com o desejo de servir a Deus.

Opinião – O senhor é um grande líder religioso. A que atribui sua liderança?
FD – Não sou nada não. Contam graças recebidas. O povo exagera.

Opinião – A mulher deve ter os mesmos direitos que o homem?
FD – Sem dúvida. Os direitos são iguais.

Opinião – E os anticoncepcionais?
FD – A Igreja sempre condenou. Ultimamente, o Papa confirmou a doutrina tradicional da Igreja. Não se pode fazer coisa alguma para tirar do ato conjugal a doutrina que lhe é própria. Os esposos devem utilizar o matrimônio de forma racional. Na limitação da prole não se pode empregar meios como anticoncepcionais. Não conhece a Encíclica Humanae Vitae? A própria Sagrada Escritura proíbe. Onã, filho de Judá, e sua mulher, faziam com que não aparecesse família, eles interrompiam. Diz a Sagrada Escritura que foi ferido de morte, porque fazia uma coisa detestável. Somente quando é um motivo razoável, os esposos devem esperar para usar o matrimônio nos dias estéreis. E nos dias fecundos, guardar a castidade.

Opinião – Como o senhor recebeu a notícia de que o homem havia conquistado a Lua?
FD – É a ciência que progride, é a ciência trabalhando, trabalhando, até conseguir chegar lá.

Opinião – Que acha da juventude no mundo atual?
FD – Ela precisa aprofundar-se também na ciência de Deus, conhecê-lo cada vez mais. A ciência não deve se afastar de Deus, mas conduzir a ele.

Opinião – Que recado tem para os pais?
FD – Que cuidem da saúde, da instrução civil dos seus filhos, mas, sobretudo, cuidem da vida espiritual. Os filhos pertencem mais a Deus que aos pais. É um depósito que receberam, por isso têm obrigação de criá-los de tal maneira que possam um dia sentir que estão na presença de Deus. Cuidar da vida natural, mas também, da vida sobrenatural.

Opinião – Muitos são unânimes em afirmar que o senhor já curou muitos enfermos e que possui alto grau de mediunidade. Que diz a isto?
FD – Não é assim não. Não curo nada. Pode ser que um tenha doença nervosa e podemos curar por sugestão. Não realizo curas. O dom dos milagres não é mediunidade, não. Para o bem da humanidade, nos primeiros tempos do cristianismo os milagres eram muito freqüentes. Era para converter. Converteram-se muitos. Assim, Nosso Senhor confirmava sua doutrina, com os milagres. Milagre é uma obra que só Deus pode fazer. O homem é somente instrumento.

Opinião – O senhor acredita que os espíritos podem se comunicar com os homens?
FD – Podem, se Deus consente a graça. É sempre uma coisa de ordem sobrenatural. Deus pode conceder para fins especiais. Para a sua glória e para o bem das almas.

Opinião – O senhor acha que o padre deve casar?
FD – O padre deve é trabalhar, trabalhar para a difusão da Igreja. Deve ser livre dos deveres de família. Isso não é da essência do sacerdócio. Nos primeiros tempos do cristianismo, tomavam um pai de família para ser sacerdote, mas para o bem da Igreja, para exercer melhor o apostolado é bom que o padre seja livre. Dedicar-se somente ao serviço de Deus e ao bem de toda a humanidade, que será sua família.

Frei Damião foi agraciado com o título de cidadão patoense, sancionado pelo então prefeito Aderbal Martins, no início da década de 70, em atendimento à propositura do vereador Adão Eulâmpio. A entrega solene aconteceu em frente à Prefeitura Municipal de Patos, para onde convergiu um grande número de populares e autoridades.

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