Monsenhor Vieira


A história de Patos tem um capítulo dos mais importantes no trabalho desenvolvido pelo Monsenhor Manuel Vieira, responsável pelo grande impulso educacional e, porque não dizer, grande parcela do seu desenvolvimento em todos os aspectos. Mas, afinal, quem foi este homem de Deus?

Manuel Vieira nasceu no Sítio Curupaity, Distrito da Vila de Belém, hoje município de Uiraúna, no dia 27 de fevereiro de 1907. Filho de Manuel Vieira da Costa e Maria Fernandes Vieira, mais conhecida por Dona Maritana, teve na agricultura de subsistência sua primeira atividade.

Aos onze anos, após ter colhido os primeiros ensinamentos de sua mãe e já órfão de pai, residindo na casa de avós, matriculou-se na escola pública da terra natal, mas, por conta de sua inteligência, a professora Augusta, aconselhara a família que o encaminhasse a uma unidade de ensino mais adiantada.

Na cidade de Cajazeiras, sequenciou seus estudos a partir de 1919 no Colégio Padre Rolim, morando na casa do tio, Monsenhor Constantino e, em pouco tempo, despertou sua vocação religiosa. Após concluir o curso de admissão, seguiu para o Seminário Diocesano de João Pessoa, em janeiro de 1921. A longa viagem demorou 12 dias, a cavalo até Campina Grande e de trem dali para a Capital. Concluiu o curso ginasial no Colégio Pio X e os cursos superiores de Teologia e Filosofia no Seminário. No dia 19 de outubro de 1930, recebeu ordenação sacerdotal na Catedral de Cajazeiras, das mãos de Dom José Coelho. Sua primeira missa foi celebrada no dia seguinte na igreja de Belém (hoje Uiraúna). Nos dez primeiros anos, entre outras funções, foi vigário de Princesa Isabel e São José de Piranhas, além de ter desenvolvido atividades de cooperador das paróquias de Cajazeiras, Catolé do Rocha e diretor espiritual do Colégio Padre Rolim.

Com o falecimento do Monsenhor Constantino, em 1933, o Padre Vieira foi indicado Vigário Geral de Cajazeiras. Nesta época, ocupou a direção da Caixa Rural, órgão da Diocese e foi diretor do Jornal Rio do Peixe.

Em 1942, designado para exercer a função de Diretor do Ginásio Diocesano de Patos, com posse em 28 de janeiro, encontrou sua verdadeira vocação, firmando-se como educador, administrador e sacerdote dedicado. Na condição de religioso, caracterizou-se não somente pela devoção a Nossa Senhora da Guia, mas também, como grande orador sacro, um dos mais respeitados do Brasil. Coordenou o movimento pela criação da Diocese de Patos, tornando-se o seu primeiro vigário geral.

Na disciplina, sempre teve o ponto forte, preocupou-se com a melhoria das condições materiais, passando por seu projeto a construção de um novo prédio, capaz de manter o regime de internato, mas dotado de uma melhor infra-estrutura não apenas no aspecto físico, como também no nível humano dos seus docentes. Uniu educação, cultura e religião. Naquela época, o Ginásio Diocesano funcionava em um prédio adaptado, constituído da soma de dois edifícios: a antiga Casa da Câmara, edificação conseguida através do prestígio do deputado José Jerônimo da Nóbrega (Capitão Ló), junto ao Governo de Venâncio Neiva em 1883, o qual mais tarde fora doado à Diocese de Cajazeiras para a sede do Colégio Dom Adauto e o Quartel da Polícia, antiga Cadeia Pública, situados na Praça João Pessoa, proximidades do Rio Espinharas.

Graças a sua iniciativa um novo prédio foi projetado e a população mobilizada na cata dos recursos. A construção das novas instalações do educandário, compostas de dois pavimentos, chegava a ser concluída em 1945, tornando-se uma referência arquitetônica da cidade de Patos. Também edificou o primeiro estádio de futebol do Sertão com arquibancadas, fazendo vir equipes de outras praças, inclusive do Rio de Janeiro, para disputas com a seleção local.

Cita em artigo o seu ex-aluno e Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Flávio Sátyro Fernandes, nomes que fizeram parte da messe do Padre Vieira e que se projetaram em diversas atividades, como sendo exemplos: Wilson Leite Braga e Dorgival Terceiro Neto, ambos governadores da Paraíba; Raphael Carneiro Arnauld e Antonio Elias de Queiroga, presidentes do Tribunal de Justiça da Paraíba; Orlando Jansen, desembargador; Jader Nunes de Oliveira, reitor da UFPB; Hermano de Medeiros Ferreira Tavares, Reitor da Unicamp, François Leite Chaves, Senador da República; Marcondes Gadelha, ex-integrante do Senado e Deputado Federal; Antonio Batista da Silva e Jovani Paulo Neto, Procuradores Gerais de Justiça do Estado da Paraíba; Antonio Carneiro Arnauld, Prefeito de João Pessoa; Bertholdo Sátyro e Sousa, Presidente do Tribunal Regional do Trabalho 1ª Região – Brasília; Djacir Arruda, governador do Território do Amapá, no governo Jânio Quadros. Além desses, inúmeros parlamentares federais e estaduais, secretários de Estado, professores universitários, jornalistas e profissionais liberais de renome.

Ao ponto em que desenvolvia o seu trabalho, profícuo e de resultados, surgia gradativamente o reconhecimento da população. Em 31 de dezembro de 1959, o Padre Vieira era agraciado com o título de cidadão, pela Lei 383. Seu estilo não poupava os procedimentos que vinham de encontro aos interesses da população, motivo pelo qual, em muitos momentos, chegava a ser alvo de críticas dos políticos tradicionais. Contudo, ninguém lograva êxito na tentativa de atingir o sacerdote. Vale lembrar a grande manifestação pública realizada em 29 de maio de 1960, em desagravo ao Monsenhor Manuel Vieira, vítima de ataques proferidos por vários oradores, durante concentração política em prol da candidatura de Janduhy Carneiro ao Governo do Estado. O encontro levou à praça pública grande número de alunos, professores e amigos do diretor do Ginásio Diocesano de Patos. Na ocasião, usaram da palavra os estudantes Geraldo Rawlison Gomes, Israel Fernandes Vieira, Nicodemos de Abrantes Gadelha, José Soares Sarmento, Alexandre Tabajara de Castro, José Egesipe de Sousa, Vandoni Dantas, Dr. Francisco Soares de Sá, Dr. Quinídio Sobral e Cônego Américo Sérgio Maia. Depois a multidão o acompanhou com grande entusiasmo até o estabelecimento de ensino.

No ano de 1962, o Ginásio Diocesano de Patos foi comprado para a instalação do Colégio Estadual. O Cônego Vieira, já elevado à categoria de Monsenhor, continuou na direção, até o momento em que foi nomeado Secretário de Educação do Estado da Paraíba, pelo então governador João Agripino.

A Vocação Política veio em conseqüência

Em 1996, elegeu-se deputado federal, tendo exercido o mandato até 1970, pela Aliança Renovadora Nacional-ARENA, renunciando a essa condição, em 24 de novembro, face à perda da visão, que o incomodava. Na Câmara, integrou a Comissão de Educação e teve atuação brilhante, no entanto preferiu não seguir a carreira política, decepcionado com a prática dos representantes brasileiros. No seu discurso de agradecimento, Monsenhor Vieira, chegou a relembrar e já em ar de concordância o deputado Rui Santos, no momento em que chegava ao Congresso e sentava-se ao seu lado, oportunidade em que era indagado: “Veio para Trabalhar? Então, não fique aqui”. Respondia já na saída da tribuna e da Câmara, o Monsenhor: “Seu conselho de homem experimentado, prático, a quem não atingia o ócio, pela experiência que tinha na vida, mas que me podia afetar, porque eu chegava sem nada conhecer, me encheu de entusiasmo. Tomei seu conselho e agora muito lhe agradeço”.

Com o término de sua missão em Brasília, Monsenhor Vieira voltou à Paraíba, assumindo a função de Capelão do Colégio João XXIII e dedicando-se a prestação de assistência religiosa aos presidiários, em João Pessoa. Veio a falecer, no dia 05 de outubro de 1994, vítima de acidente automobilístico, no contorno da cidade de Campina Grande, aos 87 anos de idade e o seu corpo foi sepultado no Cemitério Senhor da Boa Sentença, na Capital Paraibana.

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