Movimentos Afros


Buscando resgatar todos os aspectos de nossa cultura, assinalamos a retrospectiva de um dos movimentos mais polêmicos, pela simples falta de conhecimento popular. Muitas são as dúvidas, que levam a confundir essa manifestação a outras religiões: católica, espírita, etc. Por esse motivo, nada mais propício do que a verificação do sinônimo de termos característicos, antes da entrada no terreiro, tenda ou barracão, de sua história na cidade de Patos.

Xangô – Quarto rei lendário de Oyo (África), tornado orixá de caráter violento e vindicativo, cuja manifestação são os raios e o trovão. Compreende o lugar e o conjunto de cerimônias religiosas afro-brasileiras.

Umbanda Sincretismo derivado da cabula (seita secreta afro-brasileira), nascida no Rio de Janeiro que registra elementos bantos, espíritas e palavras do jargão umbandista, fracionada em dezenas de grupos que englobam influências esotéricas, cabalísticas, orientais e católicas.

Candomblé – Religião introduzida no Brasil com escravos, na qual crentes novos e ancestrais, reais ou míticos, são divinizados em cultos públicos ou secretos. Atualmente apresenta influências estranhas a sua cultura, como, por exemplo, elementos bantos do espiritismo, rituais e mitos de povos indígenas.

Macumba – denominação genérica de cultos afro-brasileiros com influências católicas e espíritas, que se desenrolam em meio a danças e cânticos, ao som de instrumentos de percussão. Esses cultos incluem oferendas rituais de comidas e bebidas, constituídas de um embrulho com farofa, azeite-de-dendê e partes de galinha, acompanhado de uma garrafa de cachaça, charutos e tocos de velas acesos, com fins mágicos.

Ainda na década de 60, o então governador João Agripino, assinou decreto legalizando os cultos afro-brasileiros, no território paraibano, iniciativa que deu um considerável impulso ao referido movimento. Em Patos, as primeiras manifestações foram registradas por volta de 1968, através de nomes conhecidos, entre os quais João Vilarim e Zé Baiano. Contudo, somente com a chegada do Pai Levino, em 1973, é que tivemos o grande ponto de partida para a solidificação dessa cultura.

Para que pudéssemos disponibilizar um maior detalhamento a respeito desta religião, buscamos em um dos seus mais autênticos integrantes de Patos, o exemplo concreto de ingresso natural na doutrina, o que nos traz um certo entendimento sobre o seu ponto de atração.

Afrânio Rosemberg Sátyro Xavier, nascido em 17 de maio de 1958, filho de uma tradicional família da cidade de Patos, cujo pai, Silvino Xavier, primeiro neto do Coronel Miguel Sátyro, é uma das figuras mais conhecidas em nosso meio, teve sua criação da infância a adolescência na condição de católico, religião seguida pelos demais integrantes do seu clã. Contudo, em 1971, encontrou razões para uma mudança significativa em sua vida, a partir de um sonho, no qual uma mulher trabalhava para retirar um espírito mau que teria se encarnado em seu corpo.

Contou-nos que dias depois, enquanto estava na residência do marceneiro Zezão, na Rua Quintino Bocaiúva, presenciou a chegada da madrasta de sua esposa, proveniente do Distrito de Divinópolis, município de Sousa e já no primeiro contato notou que a mesma tinha características da personagem do seu sonho. O que mais chamou sua atenção foi o fato de Lídia, nome da visitante que a viu pela primeira vez, ter lhe narrado o trajeto daquela alucinação que havia tido em dias anteriores, o que serviria de toque para a busca de sua verdadeira identidade religiosa.

Já em 1978, Afrânio instalou um barracão na rua Miguel Sátyro, objetivando desenvolver o seu potencial, oportunidade em que passou a arregimentar um grande número de adeptos, responsáveis, inclusive, pela manutenção da estrutura. No entanto, ainda lhe faltava a formação e sua vontade de atuar lhe conduzia a atitudes falhas, na mistura de elementos que prejudicavam o transcurso normal dos rituais, o que motivou o fechamento de sua tenda em 1982, justificada por uma decisão do seu santo superior em consonância com a orientação da Federação Paraibana.

Mais tarde veio a formação, precisamente em 1983, no Terreiro de Zé Paulo, no bairro de Belo Horizonte, quando passou a ser um Iaô, definitivamente um filho de santo. Dez anos depois realizou a parte de Babalorixá e outras obrigações, no terreiro de Edvan Farias Filho, mais conhecido por Valter da Lagoa dos Canários, na cidade de Campina Grande. Nos dias atuais, Afrânio já tem a categoria de Tatalorixá, ou seja, o grau maior, o mais antigo dentro do santo e atende as pessoas em sua residência, jogando os búzios e realizando outras modalidades contidas no contexto da função.

Com relação a Capital do Sertão da Paraíba, acrescenta que muitos habitantes têm desenvolvido as referidas aptidões, fazendo referências a existência de terreiros, tendas e barracões do passado e do presente, citando nomes como: Dona Mocinha, Inácia Preá, Luizinho, Netinho, Dona Luzia, além de muitos outros, responsáveis pela existência de uma verdadeira tradição.

Com relação ao charlatanismo, acredita que este é o grande problema enfrentado e que requer uma maior responsabilidade da Federação no tocante ao combate. Para ele, elementos que chegam a utilizar programas de rádio e prometer curas, loterias, etc, não passam de enganadores, pessoas providas de má fé que só podem ser comparadas a estelionatárias aptas as penas da lei.

No que tange aos questionamentos de praxe, apresentou saídas convincentes. Perguntado sobre o poder de descobrir males e curas, resolver problemas financeiros, entre outros que supostamente chegam a ser atribuídos às pessoas que integram essa cultura e ao mesmo tempo não conseguem ganhar os referidos prêmios, respondeu-nos: “-Tudo é uma questão de bom senso. Os espíritos não mostram como encontrar dinheiro porque na maioria das vezes a avareza pode contribuir para o fim trágico. Quem tenta arranjar o recurso fácil não está munido dos bons propósitos. Por outro lado, o fato de alguém conseguir junto a um pai de santo uma situação melhor do que a dele é perfeitamente justificável. Vejamos, pois, que um cidadão ensina o outro a dirigir e posteriormente o aluno passa a ser mais aplicado do que o seu próprio mestre. São coisas contidas na lógica, da qual ninguém pode fugir”.

Com relação ao fato de pessoas buscarem na doutrina a prática do mal, uma das explicações é dada através da figura de Exu (assimilada por missionários como o diabo cristão, gênio irascível, vaidoso, fálico e suscetível, embora possa trabalhar para o bem). “Na sua qualidade de ser ambivalente, positivo e negativo, suas características também estão associadas aos seres humanos e nem por isso somos o demônio. Ninguém é totalmente bom, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Exu, na sua condição, só fará alguma coisa, se for mandado, portanto quem faz o mal na realidade é quem pede e pagará pela própria lei da natureza”.

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