Procissão dos Homens


No calendário católico da cidade de Patos, existe uma particularidade que tem chamado a atenção do resto do mundo. Trata-se de uma procissão masculina que acontece anualmente na madrugada da Sexta-feira Santa. O ex-vereador Vigolvino Lopes dos Santos, um dos seus fundadores, revelou a origem desta tradição. Segundo ele, na referida data costumava se juntar com alguns colegas para jogar ping-pong na sede da Ação Católica. Ao final da competição, quando a rua estava totalmente deserta e a maioria da população entregue ao sono, o grupo ia até a Igreja da Conceição, pegava a imagem do Senhor Morto que lá permanecia o ano inteiro e conduzia até a Catedral de Nossa Senhora da Guia, já que no dia seguinte, no período da tarde, aconteceria o cortejo pelas ruas da cidade, além da vigília nas horas que antecediam a referida caminhada.

Com o passar do tempo o número de participantes foi aumentando e em determinado período a multidão já se tornava incontrolável. Vale ressaltar que em uma dessas ocasiões, a falta de organização veio a provocar um tumulto, motivado pela atitude de alguns populares que se destinavam mais cedo para fazer a transferência, no que eram combatidos pelos pioneiros. Após excessivo diálogo, a coisa só foi controlada quando a própria Igreja, através do Pároco da Catedral, Francisco de Assis Sitônio, resolveu interferir, instituindo, oficialmente o evento.

Além de Vigolvino, são considerados precursores da Procissão dos homens: Valdim de Mizael, Zéu Palmeira, Eduardo Escarião, Faustino e Fernando Mocinha.

O evento tem início, impreterivelmente, à meia noite, partido da Igreja da Conceição, na Praça Edivaldo Motta. Os fiéis percorrem o seguinte trajeto: rua do Prado, 26 de julho, Porfírio da Costa, Dezoito do Forte, Irineu Joffily, Leôncio Wanderley, Praça da Independência, Floriano Peixoto e Peregrino Filho, com paradas obrigatórias para várias reflexões baseadas na Via Sacra em confronto com a realidade, culminando em frente à Igreja Matriz, onde o pároco comanda algumas orações com término por volta das duas horas da madrugada, momento em que é iniciada a retirada das relíquias, quando os devotos se cumprimentam em torno da imagem e travam verdadeira disputa em busca de uma flor ou parte de galhos de árvores utilizados na decoração do caixão, os quais são guardados como um símbolo de fé.

Outra peculiaridade da Procissão dos homens está relacionada ao uso de matracas, cujo barulho produzido objetiva despertar os adeptos da caminhada religiosa. Segundo Mazim de Zé Conrado, um dos grandes atletas do Esporte, nas primeiras manifestações oficiais desse evento o motor da luz que fornecia energia para a cidade de Patos e diariamente deixava de funcionar por volta das 22:00 horas, ficava trabalhando até mais tarde, dando tempo, inclusive, para o retorno dos participantes até as suas casas.

Há quem admita uma certa discriminação com relação ao público feminino criada não pelos participantes, mas provocada pelo clima machista que cerca o evento, tanto que as mulheres são vistas apenas no trajeto a contemplar o cortejo. Alguns, naturalmente levados pela irreverência, como é o caso do saudoso Antônio Tranca Rua, chegaram a marcar época, neste particular aspecto, na década de 70. Podemos citar o caso particular que teve com Williams Formiga, mais conhecido por Cabeção, que tinha o cabelo muito grande e estava inserido na multidão participante do evento. Naquele momento o folclórico não deixou por menos provocando gozação em meio às pessoas ao desferir a seguinte frase: ôxente! E eu pensava que essa procissão era só de homem!

O fluxo de participantes tem aumentado, consideravelmente, acreditando-se que a cada ano a Procissão dos homens venha reunindo mais de cinco mil pessoas.

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