Museus


Nenhuma biblioteca possui a eficiência das enciclopédias humanas. Afinal, a constituição dos próprios livros depende da conservação dos fatos na mente dos que trabalham pela história, elemento que determina a memória de um povo. A cidade de Patos pode se orgulhar de inúmeros agentes culturais, pessoas desprovidas de ambições, que ao longo dos anos têm mantido um trabalho permanente de catalogação dos fatos, quer seja na publicação, armazenamento de artigos ou coleta de peças que formam a linha mestra de sua retrospectiva.

Entre os heróis da resistência vale destacar a figura de Luís Fragoso Filho, popularmente conhecido por Lula Fragoso, estudioso, humilde, determinado e talentoso que, mesmo em meio aos obstáculos impostos pelo tempo, conseguiu, ao longo de meio século, reunir o maior acervo de peças históricas, culturais e arqueológicas, mesmo sem contar com um espaço condigno para abrigá-las. Sempre gostou de colecionar antiguidades e pesquisar nas entrelinhas de velhos papéis, chegando aos dias atuais como um museólogo autodidata.

Partes da primeira Igreja, mantidas em tijolos e telhas desproporcionais que formaram as edificações pioneiras da Capital do Sertão, o badalo do primeiro sino, o primeiro rádio do torrão sertanejo, máquinas de costura que acompanharam a moda dos últimos dois séculos, os relógios que marcaram o nosso tempo, instrumentos utilizados pelos índios, pedras ornamentais e semi-preciosas, jóias da época do Império, oratórios centenários e imagens sacras em madeira, louças, talheres de prata, armas diversas, peças utilizadas na primeira iluminação da cidade, os primeiros documentos expedidos: óbito, registro de nascimento e casamento, além de uma infinidade de relíquias, conservadas aos trancos e barrancos, se amontoam em prateleiras improvisadas, por falta de apóio de entidades públicas, capaz de viabilizar a instalação de um Museu Municipal em Patos.

Ao longo dos anos, paralelo ao trabalho de pesquisa, Lula Fragoso buscou meios financeiros, capazes de tornar útil todo esse material, a partir da instalação em ponto estratégico da cidade para a permanente visitação de estudantes e turistas, contudo tal realização não se tornou possível. Para ele o esquecimento e a falta de interesse pela cultura é o motivo maior para que o útil não chegue a ser agradável. Driblando a própria dificuldade, não se furtou em receber pessoas na sua residência, precisamente em um quartinho de fundos, espaço que protege o precioso acervo, para fornecer informações e, às vezes chega a ser mal compreendido quando se nega e com toda razão, a emprestar esses elementos, uma vez que tal iniciativa constituiria um grande risco de destruição, já que a maioria das peças apresenta fragilidade pela ação do próprio tempo.

Lula Fragoso chegou a constituir uma Fundação, objetivando conservar, estudar, valorizar sobre os mais diversos modos e, sobretudo, expor para deleite e educação do público, suas coleções de interesse artístico, histórico, geográfico, técnico, etc.

De tanto se interessar por santos, o nome em destaque acabou aprendendo uma arte que se adequa a seu gosto pela história. Graças a sua habilidade manual e ao convívio com peças de museu, ele passou a exercitar uma arte que estava oculta em seu ego. Lula foi o responsável pela restauração dos santos e outros objetos mutilados por um homem, que em 2004 invadiu a Catedral de Patos. A olho nu, não se notam as emendas milimétricas, retocadas a pincel, com tinta e cola especiais, para não danificar o esmalte original.

Em tom de lamentação ao longo dos anos deduzimos uma certa decepção do referido agente cultural que dedicou tempo integral em nome do resgate da história e a exemplo das coisas intransponíveis chegou a comparar o que hoje é possível com aquilo que ainda não foi descoberto: “pelo enorme esforço empreendido consegui formar o quebra cabeça de uma grande imagem de nossa retrospectiva. Porém, parece que estamos na estaca zero já que aquilo que me tornou possível continua impossível por falta de exploração, desejo contido na população que se interessa pela memória de sua própria vida”.


Afonso e o comércio de peças históricas

No final do século XX, dentro de um outro estilo, unindo a história a uma fonte de sobrevivência, o comerciante apaixonado por cinema, Carlos Afonso Soares Cavalcante, filho do ex-vereador Abdias Guedes, resolveu reunir raridades em um antiquário, instalado na rua José Genuíno, no centro da cidade.

Entre as peças do acervo inicial estava um projetor de filmes mudos de 1906, centenas de discos em vinil, entre os quais o do primeiro cantor brasileiro a gravar música interpretada por Mário Pinheiro, em 1908. Já no que se refere à trajetória específica do município de Patos, o acervo conservava, cunhas, machados e pilões de pedras utilizados pelas tribos de índios Pegas e Panatis, telefones, rádios, documentários e revistas antigas, além de fotos que marcaram época no desenvolvimento da Capital Sertaneja.

O Antiquário Charles Chaplin, um lugar que supriu em parte a falta de um museu mais amplo, passou a ser uma opção diferente, onde as pessoas que dispunham de recursos tinham o acesso integral já que presenciariam e levariam para casa as partículas vivas da história. Além da compra de objetos, outra alternativa girava em torno do aluguel de fotografias, geralmente guardadas a sete chaves. Com o museu regular, os visitantes no máximo pagariam uma pequena taxa de manutenção para desfrutar desse invejável acervo.

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