Zezinho Pintor


Uma grande aptidão artística não chega a ser particularidade de renomadas escolas de artes. Se assim o fosse, seriam verdadeiros mitos ou heróis perdidos no Universo todos os que conseguissem um destaque nesse campo. Aliás, diga-se de passagem, muitas são as pessoas formadas na escola da vida, detentoras de dons trazidos do berço, com poucas chances educacionais, que conseguem fincar seus nomes e imagens na galeria do admirável.

José Paulo de Oliveira, mais conhecido por Zezinho Pintor, nasceu no dia 19 de janeiro de 1914, no sítio São José, município de Santa Terezinha que na época pertencia à Comarca de Patos. Filho de Paulo Soares dos Santos e Joana Maria da Conceição, cursou apenas o primário e desde criança mostrou tendência artística para a pintura. Aos 10 anos descobriu que era capaz de desenhar a lápis, os 25 animais do jogo do bicho, especialmente o leão. Um pouco mais tarde passou a se interessar pelo retrato, especialidade das mais difíceis da pintura e do desenho. Para ele a face da professora era tão fácil de fazer quanto a sua assinatura.

Como convergência natural fixou morada na cidade de Patos onde teve a oportunidade de desenvolver o seu potencial, tornando a Capital do Sertão bastante conhecida. Não tinha um estilo específico na arte que desenvolvia com talento e facilidade. Expressava o real com a mesma perfeição do imaginário. Nos primeiros anos já recebia o reconhecimento da classe política por retratar em tela as figuras de Ruy Carneiro, Argemiro de Figueiredo, Pedro Gondim, Alcides Carneiro, Renato Ribeiro e Pereira Lira.

Mesmo diante de tamanho potencial, Zezinho Pintor se destacava pela simplicidade, modo de vida que levou a efeito durante toda a sua existência. No aspecto folclórico encontrou mais um grau de competência, capaz de reunir pessoas em qualquer ponto da cidade para proporcioná-las momentos de lazer através do riso. Havia quem achasse que o nome em destaque era humorista de mão cheia. Vale registrar sua passagem pelo Clube dos Caçadores, entidade que ajudou a fundar e veio a presidir, espaço ideal para a apresentação de suas anedotas. Vestia-se da forma mais comum possível, tomava cachaça nos momentos de lazer e não era chegado a luxo.

No tocante ao seu lado folclórico, não gostava de admitir concorrentes e sempre que surgia qualquer contador de estórias na mesma área de atuação, no mínimo passava a ser alvo de sua antipatia. Neste particular aspecto, registra-se uma de suas passagens pela barbearia do saudoso Antônio Melquíades, oportunidade em que um estranho, ao ponto em que tirava a barba fazia uma narração fantástica aos presentes. Dizia o visitante que quando estava em Natal um cidadão havia comprado uma passagem de navio, mas quando chegou ao porto a embarcação já havia zarpado. O tal sujeito mergulhou nas águas e a nado iniciou uma perseguição pela costa atlântica, chegando a alcançá-lo no porto de Cabedelo. Nesse dado momento, Zezinho perguntou como era o nome do bravo nadador. Teve como resposta a seguinte frase: Não lembro! Já faz algum tempo. Pois estás falando com ele, disse o Pincel de Ouro.

Casou-se com Severina Paz de Oliveira, união da qual constituiu a família composta dos filhos: José, Marineide, Guadalupe, Regina e Glória. O seu descendente também se espelhou na profissão do pai e continuou desenvolvendo atividade semelhante.

Ainda no contexto da capacidade artística vale lembrar sua premiação em uma exposição realizada na cidade de Manaus – Capital do Estado de Amazonas, no ano de 1976. Recebeu o Diploma de Consagração Pública em primeiro lugar na pesquisa de preferência, realizada pela Embrapa, em 1978. Em 10 de agosto do mesmo ano foi contemplado com o Certificado de Arte Contemporânea, no Primeiro Salão Oficial de Artes do Sertão, realizado na cidade de Cajazeiras.

Com o pincel Zezinho não conheceu os seus próprios limites, pois jamais escolheu o que fazer, enfrentando todos os desafios. Se pela manhã pintava um letreiro de parede, mais tarde já estava em lugar reservado criando um quadro renascentista. Não teve a mesma fama, mas ocupou alguns espaços de restauração das obras de José Lima nas pinturas internas da Catedral, onde efetivou a recuperação da Via Sacra existente nas suas laterais e que perduram até hoje como obra atual.

Gostava muito de responder perguntas indiscretas, já que desta forma encontrava meio de criação para a sua arte de fazer sorrir. Nessa direção de certa feita foi indagado sobre qual pintura chegara a lhe surpreender. Respondeu em cima da bucha: “-Pintei um quarto de bode e no dia seguinte as moscas estavam sobrevoando nas proximidades, atraídas pela imagem da carne. De outra vez retratei na parede a porta aberta de um bar e encontrei um bêbado com a cara toda ensangüentada tentando entrar para beber”.

Deixando um pouco o lado pitoresco vale lembrar que Zezinho também foi escola para muitos profissionais que atuam na arte, os quais tiveram a oportunidade de conseguir uma vaga de ajudante e aos poucos foram captando alguns ensinamentos.

Zezinho Pintor faleceu aos 65 anos de idade, vítima de uma parada cardíaca, no dia 04 de maio de 1979, deixando além de uma grande lacuna, a imagem do maior artista plástico que a cidade de Patos e, porque não dizer, grande parte do Brasil teve a satisfação de conhecer.

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