Maria dos Bichos


Outro nome que contribuiu significativamente para a riqueza da estatuária popular, foi Maria das Dores de Oliveira, mais conhecida pelo cognome de Maria dos Bichos, dada a sua habilidade em confeccionar animais, utilizando o barro como matéria prima. Ela, a exemplo de sua irmã Felismina Santana da Conceição, fez parte da Cooperativa Artesanal Mista de Patos, espaço que lhe proporcionou um enorme progresso em termos artísticos, não apenas no aprimoramento através dos cursos ministrados, mas principalmente, por conta das inúmeras exposições, realizadas em diversas partes do país. Em 1979, o professor da Universidade Federal da Paraíba, Osvaldo Meira Trigueiro, conseguiu sensibilizar os membros do Centro Cívico João Pessoa e a Presidente da Associação dos Professores no Colégio Estadual de Patos, época em que era dirigido pelo professor Manoel Messias do Nascimento, no sentido de que inserissem na Primeira Semana Folclórica da Cidade, a mostra dos trabalhos de Maria dos Bichos, o que resultou em grande repercussão no meio estudantil da região das Espinharas. Por conta da importância do acervo, o referido docente conseguiu viabilizar o encaminhamento das peças para a UFPB, onde passou a figurar em uma exposição permanente.

Maria dos Bichos faleceu em 1980, em situação de abandono e desamparo, vivenciando a falta de reconhecimento pela grande contribuição dada à nossa cultura, cenário enfrentado pela maioria dos artistas populares, desprovidos de ajudas da comunidade e poderes públicos.

No início da década de 90, a Fundação Ernani Sátyro, através de sua presidente Emília Longo, articulou-se com o professor da UFPB, José Augusto de Morais, para viabilizar uma exposição com as peças de Maria dos Bichos, evento que teve a duração de trinta dias, rememorando a artesã para os mais antigos e divulgando sua história aos mais novos. Em Janeiro de 2000 a Universidade Federal, através do Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular – NUPPO, realizou no Centro Cultural São Francisco, na Capital do Estado, uma exposição com os trabalhos da ceramista patoense. André Ciacchi, coordenador do evento definiu a artesã numa ampla concepção: “Maria dos Bichos não é apenas dos bichos. É também Maria da gente, Maria das mulheres e dos homens, que no sertão, no litoral e na cidade, fazem a beleza da cultura popular”. Já o Curador da exposição, Gabriel Bechara Filho, emitiu o seguinte parecer: “Desde Mestre Vitalino, em Pernambuco, a cerâmica popular nordestina tem apresentado nomes expressivos no campo da escultura. Na Paraíba, Maria dos Bichos, artista natural de Patos, se destaca pela originalidade dos seus trabalhos e pela grande espontaneidade do seu imaginário, no qual os animais têm um espaço de relevo. Onças, cavalos, cachorros, porcos, bodes, elefantes, cobras ocupam um lugar privilegiado na sua galeria, onde também aparecem as figuras do boiadeiro e do cangaceiro. O trabalho da artista não tem refinamentos técnicos e muitas vezes a pintura tosca de um elemento avança sobre outro. Mas se a fatura não é apurada no acabamento, o brutalismo formal das peças ganha em expressividade e faz de Maria dos Bichos uma artista singular entre as ceramistas populares brasileiras. A escultora morreu na total indigência e miséria, e poucos foram os esforços oficiais para ampará-la e para preservar a sua rica produção artística”.

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