Coriolano de Medeiros


Matéria assinada pelo competente historiador J. Ozildo e publicada no Jornal “A Voz do Povo”, edição de agosto de 2004, nos traz uma idéia concreta sobre a vida e obra de um dos maiores imortais, cuja origem está fincada na Capital do Sertão da Paraíba.

Nascido aos trinta dias do mês de novembro de 1875, no Sítio Várzea das Ovelhas, localizado nas margens do Riacho do Cipó, em território de Patos, hoje desmembrado para Santa Terezinha e filho do casal Aquilino Coriolano de Medeiros e Joana Maria da Conceição, tendo sido sua família atingida pela terrível seca que assolava o Sertão Nordestino, Coriolano de Medeiros teve que ir tentar a sorte ao lado de seus pais transferindo-se em 1877, para a capital paraibana, onde perderia o seu genitor em pouco tempo, acometido de um mal na época conhecido por sezão. Posteriormente teria como padrasto Vitorino da Silva Coelho Maia, o qual daria uma contribuição fundamental na sua formação de grande homem das letras.

Coriolano de Medeiros tinha como avô paterno o professor Francisco Herculano de Medeiros, primeiro Tabelião Público e Mestre Escolar da cidade de Patos. Na antiga cidade de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, fez os seus estudos básicos. De início freqüentou uma unidade de ensino particular, a qual tinha endereço na Praça de Nossa Senhora Mãe dos Homens, sob a coordenação da professora Cecília Cordeiro. Também foi aluno dos renomados professores, Antônio Ribeiro Guimarães e Manoel Fortunato, sendo que em 1891, concluiu o curso preparatório no Liceu Paraibano. Naquela época, Coriolano de Medeiros tinha como maior sonho tornar-se médico ou ingressar na Marinha, contudo, as condições conquistadas apontavam para outro caminho. Ainda adolescente ele passou a dedicar-se às letras, participando da redação do periódico mais antigo da Paraíba, intitulado “A União Tipográfica”, ao lado de Neves Júnior e José Manoel dos Anjos, no qual publicou o seu primeiro artigo: “Coesão da Classe”, numa luta pela solidariedade entre os tipógrafos, e passou a divulgar os seus poemas inéditos. Com apenas 17 anos de idade matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, onde cursou até o terceiro ano, decidindo por abandonar o aprendizado jurídico, dedicando-se ao comércio, oportunidade em que passou a atuar como caixeiro da Tabacaria Peixoto, começando como balconista e chegando à condição de comerciante estabelecido.

Coriolano de Medeiros tentou, por duas vezes, ingressar no serviço público, obtendo a primeira colocação nos concursos para Oficial de Descarga da Alfândega e Correios, mas sendo substituído por conta de interferência política. O máximo que conseguiu foi substituir servidores da ECT, por licença ou falta ao serviço, percebendo metade do salário destinado ao respectivo titular.

Com a morte do seu padrasto, em 1898, Coriolano de Medeiros passou a ter as atribuições relacionadas à manutenção da família, oportunidade em que abriu uma escola na rua São José, atual Arquimedes Souto Maior, mantendo-se por vários anos à custa do magistério.

Ainda moço, foi músico da Banda do Clube Astréa, oportunidade em que conquistou o carisma dos seus colegas, tendo sido homenageado com uma retreta, em 29 de setembro de 1901, na rua Direita, hoje Duque de Caxias, figurando no programa a schottisch denominada Coriolano de Medeiros, composição a ele dedicada de autoria do Maestro Manuel Menelau.

A sua saída do grupo deveu-se a afazeres particulares, contudo, em 1902, tornou-se membro fundador do Club Simphonico da Parayba, primeira orquestra Tabajara, atendendo convite de Eduardo Fernandes e dos Maestros Elias Pompílio e Plácido Cézar.

O casamento aconteceu em 29 de julho de 1905, com a pianista Eulina de Medeiros Rolim Viúva do ex-juiz de Cajazeiras Dr. Joaquim Gonçalves Rolim, com quem conviveu 47 anos sem ter filhos. Muitas foram as figuras da sociedade paraibana que participaram de saraus organizados por Coriolano de Medeiros, em sua residência.

Em 1909, foi nomeado escriturário da Escola de Aprendizes Artífices, pelo Governador João Lopes Machado, chegando a direção do referido estabelecimento em 1922, permanecendo no cargo até a aposentadoria. O hino da unidade educacional em evidência é de sua autoria, o qual foi musicado pelo maestro Severino Gomes e entoado pela primeira vez em 1925.

Ligado a figuras de destaque no meio musical paraibano, integrou, em 1912, o grupo de fundadores do “Club Musical Guarany”, destinado a incentivar à prática desse tipo de manifestação artística em meio à juventude, tendo como principal entusiasta Otávio Golzio. No dia 06 de janeiro do mesmo ano, na Praia Formosa estreou como ator na encenação do drama intitulado “Como se Passa a Festa”.

Demonstrando enorme prestígio, em 1928 teve seu nome lembrado para a Secretaria Geral do Estado, no Governo do Presidente João Pessoa, mas devido a sua ligação política com, Walfredo Leal, aquele que conseguiu empregá-lo na Escola de Aprendizes Artífices, acabou sendo vetado pelo líder supremo da política paraibana, como era mais conhecido Epitácio Pessoa, que em carta ao sobrinho enviada de Haia, expressou-lhe como justificativa a seguinte declaração: “tenho a impressão de que foi sempre nosso adversário e não é de feitio para o cargo; parece melhor deixar onde estava já que não pode ir para a biblioteca e não há um instituto histórico oficial”.

Coriolano de Medeiros conseguiu grande destaque como jornalista, chegando a ser considerado o melhor discípulo de Artur de Aquiles, um dos maiores nomes da época. No Jornal “O Comércio”, desenvolveu um excelente trabalho a partir de 1900, onde escrevia o suelto, a notícia, o artigo de fundo, respondia pela parte financeira, da distribuição e dia-a-dia dos operários. Fez parte dos colaboradores do Jornal “A União” e idealizou a Revista Filipéia Semanário literário, agrícola, político, artístico, científico, religioso, industrial, humanístico, etc, com circulação do primeiro número em 02 de julho de 1905, tendo como principais redatores Artur de Aquiles, Castro Pinto, Neves Júnior e Francisco Barroso. Em 1914 fez circular o Jornal do Comércio, responsável pela defesa das classes produtoras eqüidistante da política partidária.

Durante a campanha eleitoral de 1915, momento em que foi consolidado o rompimento entre os senadores Epitácio Pessoa e Walfredo Leal, Coriolano de Medeiros gerenciou o Diário do Estado, responsável pela propaganda política Walfredista, com vários nomes de destaque na redação, a exemplo de Antônio Sá, Leonardo Smith, Isidro Gomes, Rodrigues de Carvalho, José Américo, Seráfico Nóbrega Sênior, Cônego Matias Freire e Heráclito Cavalcante.

Como professor, Coriolano de Medeiros exerceu a função em vários estabelecimentos de ensino da capital paraibana, encerrando sua careira docente em 1948, ministrando suas últimas aulas na Escola Enderwood, época em que já havia perdido a visão e enfrentava o limite de suas forças físicas.

De sua mãe, ainda menino, Coriolano de Medeiros ouviu as mais belas e fascinantes histórias, lendas e fatos do Sertão paraibano, que despertaram-lhe a vontade de conhecer a região onde nascera. Em 1888, ainda adolescente, visitou a Vila de Patos, oportunidade em que observou e colheu as primeiras impressões, que mais tarde seriam reveladas em seus livros.

Pesquisador incansável da história e das tradições sertanejas, em 1914, através da Imprensa Oficial Estadual, Coriolano de Medeiros lançou a primeira edição do seu “Diccionário Chorográphico do Estado da Paraíba”, uma das maiores fontes de pesquisa sobre a terra tabajara e que teve uma segunda tiragem em 1950, patrocinada pelo Ministério da Educação.

Sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (1905), do Centro Literário Paraibano, Instituto de Proteção e Assistência a Infância (1912), Associação de Homens de Letras, da Universidade Federal da Paraíba e Academia Paraibana de Letras (onde ocupou a cadeira nº 7 e foi o seu primeiro presidente). Também foi sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e de Sergipe, Centro Polimático de Natal, Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano e do Centro de Ciências e Letras de Campinas – SP. Em meio às inúmeras publicações podemos destacar: “Do Litoral ao Sertão” (1917); “Resenha História da Escola de Aprendizes Artífices do Estado da Paraíba do Norte” (1922); “Maestros Que Se Foram” (1925); “O Barracão” (1930); “Manaira nas Trilhas da Conquista do Sertão” (1936); “A Evolução Social e Histórica de Patos” (1938); “O Tambiá da Minha Infância” (1942); “Sampaio” (1958).

Coriolano de Medeiros faleceu no dia 25 de abril de 1974, aos 98 anos de idade, em sua residência localizada na rua do Sertão, 232, Bairro do Cordão Encarnado, em João Pessoa. No soneto intitulado de Patos, Coriolano fez uma homenagem à sua terra natal:

Casa de Paulo Mendes, no trecho descampado/ e além, de João Gomes, avulta a moradia/ bem no centro do Pátio, o norte defrontado/ sorri o templozinho da Senhora da Guia/ Moradas de vaqueiros, currais aonde o gado/ rumina e muge triste à mutação do dia/ No milharal viçoso, ou verde ou sazonado/ debicam periquitos, farfalha a ventania/ Pegas e Panatis, de tangas bem vermelhas/ guardam porcos e cabras, bezerros e ovelhas/ E de lavoura cobrem dos vales grandes tratos/ Paira atrás a Lagoa e na frente o Pinharas/ restrito no verão a fios de águas claras…/ E assim no meu sertão um dia surgiu Patos!

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