Allyrio Wanderley


Para referenciar a produção literária, tão peculiar à capital sertaneja, basta que, de maneira objetiva, resgatemos na história um dos nossos maiores exemplos. Allyrio Meira Wanderley, nasceu no sítio Campo Comprido, em 22 de outubro de 1906. Filho de Francisco Olídio Monteiro Wanderley e Ignácia Maria Meira Wanderley (Dona Sindá), concluiu a carta de ABC, aos cinco anos de idade, no Colégio Leão XIII, ingressando em seguida no Instituto Sete de Setembro, ambos da cidade de Patos. Em 1919 foi estudar em João Pessoa, no Colégio Pio X. Sua viagem para a Capital seria retratada por ele em publicação futura, vazada nos seguintes termos: “Era madrugadinha, quando parti a cavalo, com o portador e uma família. A viagem longa não me aborreceu, em todos os seus três dias e meio. Descansávamos à sombra dos umbuzeiros, dormíamos em ranchos, alpendres ou latadas e madrugávamos. No Colégio Pio X ganhei primeiros bancos de honra em quase todas as matérias, durante os cinco meses que lá passei discuti com professores, briguei com prefeitos, lutei com colegas e joguei futebol”.
Mal tinha vencido a primeira etapa do ano letivo e, em agosto de 1919, acometido de uma infecção intestinal, teve que retornar à casa dos pais e permanecer quatro meses em tratamento. Com a saúde restabelecida e o desejo de dar seqüência aos estudos, seguiu para Recife e no Ginásio Pernambucano escreveu seu primeiro romance, intitulado “Vae Victs” e uma lenda paraibana “Potyra”, sendo que o referido trabalho acabou sendo queimado a mando do Padre Félix, seu diretor, por ver no gosto do jovem pela literatura, uma fuga para a indisciplina.

No Colégio Salesiano concluiu o Ginasial. No ano de 1924, precisamente no mês de junho, terminou o Curso de Humanidades e seguiu com destino a São Paulo.

No sul do país, o nome em destaque, passou a escrever rodapés para diversos jornais, espaço que o consagraria como crítico literário. Contudo, os empregos conseguidos foram apenas temporários e a lembrança dessa fase difícil de sua vida foi retratada no romance “Bolsos Vazios”.

Na Paraíba, Allyrio também havia usado a caneta nos jornais: Correio, Norte e A União, trabalho com o qual agregou para si um grande número de inimizades. Em Patos, escreveu para o jornal “O Peba”, editado em 1930, na Festa de Nossa Senhora da Guia.

O Primeiro livro de Allyrio, que também era conhecido como o Louro do Jabre, foi publicado pela Editora Cultura, em 1931, intitulado “Sol Criminoso”, o qual foi escrito em uma das dependências da casa do seu avô materno, Capitão Roldão Meira de Vasconcelos, na rua Miguel Sátyro. A obra obteve Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras. Já em 1934 lançou “Os Brutos”, romance editado em São Paulo. “As Bases do Separatismo”, terceira obra, foi o trabalho mais conhecido e polêmico que chegou as bancas em 1935. Na referida publicação ele propôs a divisão do Brasil em cinco estados, como forma de resolver o problema da falta de infraestrutura, roubalheira e desmandos administrativos. Nesta época, em que foi membro da Associação Paulista de Imprensa, teve os exemplares da obra apreendidos. Perseguido pelo governo voltou à terra natal, se refugiando na Fazenda Campo Comprido, em uma casa de pedra, de onde o exilado avistava o Pico do Jabre, enquanto esperava uma decisão judicial. Em determinadas noites saía do esconderijo e ia à cidade conversar com o seu amigo de infância, padre Fernando Gomes. De certa feita, revoltado com a situação vivida, disse ao sacerdote que iria colocar o nome do filho mais novo de Satã, no que foi repreendido e acabou batizando o menino por José Jabre. Juntamente com a esposa alemã Augusta Herta Cleneveth Wanderley, tomou o padre como padrinho da criança. Outro ponto que costumava freqüentar durante o mesmo período era a Livraria de Antônio Pereira de Morais, onde adquiria as novidades do mundo literário.

Somente no ano de 1940, conseguiria publicar “Bolsos Vazios”, pela Editora Guaíra de Curitiba. Cinco anos depois ele lança “Ranger de Dentes”, pela Companhia Editora Leitura. “Os Carneirinhos” foi o seu último livro publicado.

Seu primeiro casamento foi com uma alemã, de nome Augusta Herda Cheneveth, com a qual teve o filho que denominou de Jabre, em homenagem ao pico avistado de sua primeira morada. Do segundo casamento, com Eulália França, nasceram: Bongi, Rudá, Herda e Sandro. Casou-se pela terceira vez com Terezinha Carvalho, cuja união resultou no nascimento de Hulda.

Sobre a viagem do escritor pela Europa, algumas referências foram feitas por Eduardo Martins, quando, em 1971, ocupava a Cadeira 37 da Academia Paraibana de Letras, a qual tem Allyrio Meira Wanderley como patrono: “Por motivos não esclarecidos (espírito de aventura ou sede de conhecimento) empreendeu Allyrio uma viagem a Europa. Amealhando o necessário, parte com destino a França onde desembarca com pouco dinheiro. Terra estranha, só um meio a recorrer: o trabalho a bordo. E se fez taifeiro do navio em que viajava. Cada porto um mundo novo para o seu espírito ávido de saber. E escreveu para jornais das terras onde aportava. E, assim, conheceu, além da França, Alemanha, a Bélgica, Portugal, Espanha e Rússia”.

“Do contato direto com essas terras e suas gentes, resultou a aprendizagem dos idiomas – Expressava-se com facilidade e propriedade em quase todas as línguas vivas da Europa. Inclusive, Allyrio, fez também traduções de livros estrangeiros, transpondo-os para o vernáculo, a exemplo de: “Um Jogador”, de Fedor Dostoiewski; “Padre Sérgio” e “Khadji-Murat”, de Leon Tolstoi, ambos em 1931. E, mais adiante, sabe-se ter se doutorado em Filosofia, pela Universidade de Heidelberg, na Alemanha”.

Dinamérico Wanderley, primo e grande amigo do escritor patoense relata que o mesmo lhe confidenciara que um curso feito em Montepelier, na França, foi o responsável maior pela abertura de sua mente, para ver com outros olhos as coisas que o cercavam.

Allyrio Wanderley morreu convertido ao espiritismo, exalando os seus últimos momentos ao lado da esposa Terezinha e assistido pelo Dr. Jacinto Medeiros, precisamente no dia 15 de janeiro de 1955, às 11h30, na casa onde residia, no bairro Santa Júlia, em João Pessoa, vítima de embolia cerebral. Seu corpo foi velado no Salão Nobre da Associação Paraibana de Imprensa, na Capital, transladado para Patos e sepultado no Cemitério de São Miguel, no dia seguinte a sua morte.

Entre os importantes depoimentos que comprovam a enorme capacidade do fantástico patoense, encontramos no livro Retalhos do Sertão, escrito por José Permínio, a seguinte declaração: “Era um dispersivo; faltava-lhe o fulcro de um caráter harmonioso para guiá-lo e sustentar-lhe a inteligência sublime, para plasmar no bronze da posteridade os tesouros imensos de seu cérebro, que os derramava a flux, sem lhes dar condição de perenidade. É pena. Podemos discordar de suas idéias; de seus conceitos filosóficos; de sua instabilidade política e emocional; mas, deixar de admirar-lhe o estilo, todo seu, originalíssimo, mesmo, os conhecimentos filológicos, assombrosos, a verrina candente quando batia, a harmonia dulcíssima quando aplaudia, é impossível. Panfletário terrível, todos o respeitavam. E, certa feita, ouvimos de Virgínius da Gama e Melo que no Brasil só havia dois jornalistas capazes de medir forças com ele: Assis Chateaubriand e Carlos Lacerda”.

Vale lembrar, ainda, a saudação feita por Allyrio à oiticica: “Benfazejas árvores do país louro: certo foi feito do vosso cerne o coração das mães que vão nascendo ou vão habitar em vossa rama as almas das mães que vão morrendo”.

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