Miguel Sátyro


Miguel Sátyro e Sousa nasceu numa fazenda do antigo Distrito de Paulista, município de Pombal, Estado da Paraíba, no dia 11 de novembro de 1867. Filho do Major Sizenando Sátyro e Sousa e Cândida Maria de Sousa, radicados no Distrito de São José de Espinharas, que na época pertencia a Patos e mais tarde seria transformado em município, fez seus estudos primários na Capital do Sertão e não teve a oportunidade de freqüentar o curso ginasial. Apesar disso, desde cedo mostrou pendores intelectuais, ao lado de uma tendência política.

Foi, durante cerca de 40 anos, chefe político da área territorial de Patos, hoje dividida em oito municípios e assumiu o mandato de deputado estadual por quase 20 anos. Sua ascensão ocorreu a partir de 1904, com a queda da família Dantas somada a tutela do seu sogro Capitão Manoel Gomes. Exerceu também a advocacia cível e criminal, menos por interesse financeiro do que para servir aos seus amigos e correligionários. Apesar dos limitados conhecimentos de que dispunha, era considerado pelos seus contemporâneos como uma vocação jurídica. Na Assembléia Legislativa, dedicou-se de preferência ao estudo dos “Negócios Municipais”, expressão então em voga, pertencendo sempre à respectiva Comissão. Também se especializou em questões regimentais, participando sempre dos grupos que tratavam da matéria. Conhecia bem a legislação eleitoral de sua época.

Foi ainda Miguel Sátyro, Delegado de Polícia e Chefe da Recebedoria de Rendas da cidade, além de Tenente-Coronel da Guarda Nacional, ou seja, da segunda linha do Exército, posto que, como se sabe, teve em certo período grande representação.

O traço marcante da atuação do Coronel Miguel Sátyro, como chefe político de largo e incontestável prestígio, foi o espírito de paz e concórdia com que dirigiu a sua comuna. Numa época em que a atividade política se caracterizava pela violência das lutas, pelo ódio e pela inimizade, o município de Patos era apontado em todos os pontos da Paraíba como exemplo de tranqüilidade e harmonia, onde os adversários se entendiam cordialmente, freqüentavam as casas uns dos outros, sob o exemplo do chefe manso e pacífico. Isso não significava negar que, em Patos, a política não tivesse os vícios do seu tempo – as eleições a bico de pena, a figura do chefe, poderosa, intervindo em tudo: na Justiça, na Polícia, no Fisco. Tinha de tudo isso, e negá-lo seria fugir da verdade para engrandecer uma memória. Mas, o que acontecia em Patos poderia ser classificado como ausência da constante e atual perseguição política. As próprias eleições, quando simuladas (nem sempre o eram), realizavam-se de acordo com os chefes adversários, reservando para estes uma votação razoável. E todos assinavam as atas.

Vale salientar, também que Miguel Sátyro foi um dos pioneiros da imprensa no sertão paraibano. Se não foi o número 1, foi um dos primeiros a editar jornal nas placas sertanejas. O seu “O Jornal do Sertão”, circulou de 1916 a 1918 e em segunda fase, de 1924 a 1926, nele tendo colaborado nomes prestigiados da Paraíba. Foi ali que se iniciou na imprensa, Rafael Correia de Oliveira, que depois se tornaria um dos grandes articulistas do Brasil.

O Coronel Miguel Sátyro e Sousa foi casado duas vezes. A primeira com Maria Gomes de Sousa, com quem gerou três filhos: Emília, Clóvis e Antônia. Do segundo consórcio, com Capitulina Aires Sátyro e Sousa, nasceram Avani e Ernani Sátyro, além dos enteados Firmino e Tiburtino Leite, pois sua segunda esposa também casou-se duas vezes, sendo o seu primeiro marido o Dr. Inocêncio Leite Ferreira.

No dia 21 de junho de 1934, às 21:00h, aos 67 anos de idade, falecia na cidade de Patos o Coronel Miguel Sátyro e Sousa, sendo o seu nome reverenciado por toda a população do município e de outras regiões paraibanas. Para destacar a sua grande importância para a localidade, basta lembrar que até hoje a denominação “Patos de “Majó Migué”, perdura em nosso meio.

Entre as homenagens prestadas a Miguel Sátyro e Sousa o maior destaque reside nas comemorações do seu centenário de nascimento, no ano de 1967, quando as maiores lideranças da Paraíba tomaram parte na programação, desenvolvida nos dias 10 e 11 de novembro. Além de alvorada com a banda de música, missa, desfile de escolas e a inauguração da Praça que tem o seu nome, foram proferidas palestras a respeito do homenageado pelo Dr. Firmino Ayres Leite e Manuel Gomes Filho (Nô Gomes). Durante as solenidades, importantes pronunciamentos foram levados a efeito por diversas autoridades. Argemiro de Figueiredo declarou: “muitos dos outros chefes políticos arrimavam o seu prestígio no poder da violência e da ameaça. E não poucos mantinham em suas fazendas verdadeiros arsenais polidos e modernos para solução, à mão armada, dos problemas mais graves. Miguel Sátyro repudiava esse arbítrio. Não era formado, mas vivia às portas do Fórum, defendendo, ele próprio, as demandas cíveis e criminais que interessavam aos seus amigos. E o fazia sem ônus para eles”; Pereira Lira: “Miguel Sátyro era uma personalidade marcada de serenidade cívica e de compreensão humana”; Fernando Nóbrega: “um chefe político dos velhos tempos, prudente e leal, experiente e sagaz, que naqueles recantos das espinharas realizou um milagre de paz e tranqüilidade, contrastando com o quadro ardente das lutas sertanejas”; Alcides Carneiro: “Miguel Sátyro era um sertanejo diferente, um condutor de homens, que se destacava, no bom sentido, do padrão consagrado pelo meio. Sem exibições de força e coragem, tão do agrado dos sertanejos, conquistou e consolidou seu prestígio, pessoal e político, usando a brandura e a habilidade”; Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo: “chefe natural e autêntico, não se destacou pelo estilo autoritário, que em meio a época ainda comportavam. Notabilizou-se, diversamente, pela tolerância, prudência e sabedoria com que dirigiu, por tantos anos, a grande comuna que, nesta data, comemora o centenário do seu nascimento”; José Américo de Almeida: “conheci tão bem Miguel Sátyro que posso evocar sua figura com a fidelidade de quem lhe sente a presença. Fora e dentro de casa era um padrão de virtudes antigas. No tempo em que a política era ainda, por assim dizer, feudal, singularizou-se ele, como chefe, por sua mansidão, sem nenhum resquício de mandonismo. Sempre hábil e conciliador. A longa influência que exerceu em sua terra era um fruto das suas maneiras e dignidade pessoal. Merece ser consagrada a sua memória como reflexo de uma vida exemplar”. Na Câmara Federal, onde o deputado Ernany Sátyro, seu filho, exercia a Liderança do Governo Costa e Silva, foi realizada uma sessão especial em homenagem ao centenário do antigo chefe político das Espinharas, requerida pelo Deputado Mário Covas, líder da oposição.

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