Virgílio Trindade


“Meu pai tinha uma bodega e um roçado: o que a bodega vendia o roçado comia. Mamãe era taxativa: – Homem, vende o roçado e cuida da bodega! Papai retrucava: – Vou é vender a bodega e cuidar do roçado. Mamãe argumentava em favor da bodega, porque era de lá que tirávamos o “pão de cada dia”; papai argumentava em favor do roçado, porque era de lá que vinha o “legume de lavra”. Um dia papai vendeu a bodega, e a profecia de mamãe se confirmou. Nossa vida ficou difícil, o dinheiro ficou curto e eu tive que me mandar do Piancó. Não sei ao certo quanto chão andei, nem quantas profissões adotei; sei entretanto que nunca esqueci a fartura da bodega!”

Com essa preciosidade escrita por Virgílio Trindade Monteiro, encontramos o ponto de partida que desejávamos para enfocar de maneira simples, em consonância com o seu modo humilde de ser, a vida dessa “Baraúna”, que tanto tem feito por Patos, depois de demonstrar competência em outros centros, na tentativa de galgar um lugar ao sol, sempre dotado de disposição, coragem, criatividade e, acima de tudo, competência.

Se sua primeira grande admiração e contentamento foi pela bodega, nada mais interessante do que, antes de entrar no seu currículo, testemunha maior de sua capacidade, reviver na definição que ele próprio criou para esse estabelecimento comercial, uma prova de tino para a caneta: “A bodega é uma instituição social, mesmo num sistema capitalista; é como se fosse uma coisa de todos. Você compra caro, mas fica satisfeito, porque lá você abusa, toma dinheiro emprestado, compra fiado, manda a toda hora, abre tarde da noite, conversa com vizinhos e amigos e, o que é mais importante, compra pão, açúcar, sal, comprimidos, bebidas, gilete, cigarros, fumo de rolo, sabão, comida, vassoura, veneno, cimento, rapadura e o que mais queira, na medida do seu varejo e do seu dinheiro, já que o “retalho” é a salvação do pobre. Tudo isso e mais: você tem direito à caderneta que é a forma de crédito mais simples e mais eficiente do mundo; mais importante que nota promissória, letra de câmbio, duplicata ou cheque especial, porque não precisa de contrato, avalista ou outra condição especial. E você ainda tem o direito de, mesmo pagando atrasado desconfiar que foi roubado na soma, brigar com o bodegueiro e, ainda assim, manter o crédito e não deixar de comprar fiado. Pelo contrário: você compra mais, briga mais e gosta mais da bodega e do bodegueiro”.

Filho de José Trindade Monteiro e Cecília Cavalcante Monteiro, Virgílio nasceu aos 09 dias de junho de 1940, no município de Piancó, onde cursou o primário na Escola Ademar Leite e o curso ginasial na Escola Agrotécnica Vidal de Negreiros e Ginásio Santana.

Em 1958, foi tentar a sorte em João Pessoa, sequenciando os estudos a partir do ingresso no Liceu Paraibano e Curso Técnico em Contabilidade na Academia de Comércio Epitácio Pessoa. Paralelo às atividades educacionais passou a desenvolver funções profissionais como forma de sobrevivência, tendo como ponto de primeiro emprego o Moinho Teone e iniciando também a sua vida de homem da comunicação com uma função na Rádio Arapuan e depois na Tabajara. Com relação à imprensa escrita teve passagem pelos Jornais Correio da Paraíba e A União.

No ano de 1963, aportou na cidade de Patos, passando a coordenar o Departamento de Jornalismo da Rádio Espinharas e assumindo emprego no Banco do Estado da Paraíba, em 1965. Na instituição financeira permaneceu apenas um ano, quando decidiu instalar o seu próprio escritório de contabilidade, enquanto que na Rádio Espinharas permanece até os dias atuais, inclusive tendo estado uma temporada no Sistema Itatiunga de Comunicação. Virgílio Trindade teve em Patos uma participação fundamental no futebol. Na condição de técnico dirigiu o Nacional Atlético Clube, entre 1966 a 1985, período em que o “Verdão Maravilha” viveu suas maiores façanhas, inclusive na conquista do Vice-Campeonato paraibano em 1978, oportunidade em que foi eleito o “Técnico do Ano”, entre os demais do Estado. Comandou também a Sociedade Esportiva São Sebastião, o Esporte Clube de Patos e o Treze de Campina Grande.

Como homem notadamente polivalente, conseguiu grande destaque no campo musical, na condição de compositor, com a autoria de quase 50 músicas, três das quais gravadas por Pinto do Acordeon, como parceiro. Participou de todos os festivais de músicas realizados na Capital do Sertão e como cantor integrou vários grupos musicais, a exemplo do VAZ-7 e Ataulfo Alves, a partir da década de 60.

Na Política local foi vereador no período de 1977 a 1982; Vice-Prefeito de 1983 a 1988, tendo assumido a titularidade do Executivo Municipal durante 44 dias. Virgílio também presidiu o PPS no período de 1992 a 2001.

Bacharelado em Ciências Econômicas pela Fundação Francisco Mascarenhas, com especialidade em Teoria Econômica, Virgílio Trindade passou a ser professor da referida instituição de ensino superior, tendo atuado nas seguintes disciplinas: Moedas e Bancos; Economia Agrícola, Economia Internacional; Historia do Pensamento Econômico; Economia do Setor Público, Desenvolvimento Sócio-Econômico e Contabilidade Social.

O casamento com Maria José Trindade aconteceu em 08 de dezembro de 1965, união da qual originou a professora Roberta Trindade Martins Lira e o Juiz Ely Jorge Trindade, além das netas Camila e Carolina.

Homem simples no modo de ser e composto no profissionalismo, Virgílio Trindade Monteiro não esconde sua grande paixão pelo rádio, atuando em programas políticos, musicais e esportivos. Mantém em seu escritório da rua Felizardo Leite um permanente encontro de intelectuais e jornalistas para a atualização permanente dos acontecimentos. Atencioso e prestativo, conserva suas características peculiares, as quais o transformaram em uma das pessoas mais queridas da Capital do Sertão da Paraíba. Entre os seus amigos, existe uma unanimidade na afirmação de que se muito mudou na vida desse personagem, se ele passou a figurar entre os grandes homens da Paraíba e, notadamente da cidade de Patos, pelos seus procedimentos humildes podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que existe uma enorme semelhança entre o grande profissional do presente e o moleque do Piancó do passado: A bodega saiu da sua vida mas ele não saiu do tempo da bodega.

Uma das músicas de Virgílio trindade premiada em festival realizado no Cine Eldorado na década de 70 e gravada em compact disc por Valdemir Saraiva.

Meu samba minha vida

Minha escola tão querida
Que sai comigo
Para sambar na rua

Foi no samba que aprendi
A dizer a verdade
Foi no samba que senti
Minha maior saudade
E no samba entendi
O que é a dor
Foi no samba que perdi
O meu primeiro amor

O samba não é feito com mentira
O samba não é feito com maldade
O samba para o povo se atira
E diz a cada um sua verdade
Tem samba triste pra quem tá sofrendo
Tem samba alegre pra quem tá sorrindo
Samba é arrimo pra quem tá descendo
Samba é escada pra quem tá subindo

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