Professor Oliveira

Em matéria publicada na Revista Opinião, editada em dezembro de 1977 e assinada por Fátima Lima, podemos deduzir a grande capacidade de um dos maiores mestres da cidade de Patos, o professor Manoel de Souza Oliveira. Passemos a reviver a referida narração como ponto de orientação sobre este grande personagem:

A personalidade desse homem sempre exerceu sobre mim, uma forte atração. Gostava de ouvir de seus alunos os fatos pitorescos que em suas aulas se registravam. Admirava sobremodo o seu relativo desdém para com o fator nota, desde que, para ele, o importante era que o aluno tivesse real vontade de aprender. Por outro lado era (e é) de todos conhecido seu imenso amor pela terra natal: O VELHO VALE DO PIANCÓ. Falar do Vale é de certa forma lembrar o Professor Oliveira. Os dois identificam-se com perfeição apesar de distantes. Estes fatores todos e uma desmedida luta pela educação da juventude patoense fizeram com que o Prof. Oliveira viesse a significar para mim uma das mais admiráveis figuras que por estas terras trabalharam e que a elas serviram. Por isso quis-lhe saber a vida. Por isto conto-a agora para os leitores de Opinião.

“Manoel de Souza OLIVEIRA é o seu nome. Nasceu num dia 08 de outubro de 1907 no sítio Pedra do Fumo, hoje cidade de Pedra Branca (fundada em 1954 por familiares seus), outrora pertencente à velha Itaporanga. Até os 17 anos trabalhava Oliveira na agricultura. Segundo suas próprias palavras na “entre-safra” durante quatro horas freqüentava a escola e noutras quatro horas trabalhava na roça. Isto até 1924 quando deixou o Vale e foi em busca da Capital do Estado afim de ingressar no Seminário que funcionava no histórico convento de São Francisco. Conta Prof. Oliveira que sua viagem da terra natal para Campina Grande constitui-se numa aventura.

Foram oito longos dias na estrada, lutando contra as correntezas e a lama que fizeram famoso o inverno daquele ano. O transporte era um cavalo. A bagagem, uma grande vontade de vir a ser sacerdote. De 1924 a 1931 fez o curso primário, médio e superior de Filosofia. 1932 seria o ano de seu ingresso no curso de Teologia, reta final de sua carreira religiosa. Não o fez, porém. Vontade não lhe faltava. Por que então? Responde tranqüilamente o professor: “Contratempos financeiros, este obstáculo tão comum ao lutador filho do campo”. O seminário perdia um excelente aluno. De nada lhe valeram as esperanças que até o ano seguinte alimentou. O sonho estava destruído. Em 03 de novembro de 1933 despediu-se da “sotaina preta”.

Naquela época, a Revolução de 1930 procurava difundir o ensino médio pelo interior do País. Numerosos colégios particulares sob inspeção Federal foram criados em nossos sertões. Entre eles o Colégio Diocesano Padre Rolim dirigido pelo então Pe. Fernando Gomes, hoje Arcebispo de Goiânia. O Padre Fernando conhecia de perto o talento do seu ex-colega de seminário, o quase padre Manoel de Oliveira. Convidou-o então para compor o corpo docente do seu educandário. Assim em 1º de março de 1934, Oliveira começou a exercer a missão que não está muito distante do sonhado sacerdócio. Nasceu o “professor Oliveira” ensinando Religião, Português, Música e Ciências. Em 08 de dezembro de 1935 o professor tomou como esposa dona Eudésia Marques, com quem veio para Patos em 1940, a convite do Pe. Vicente de Freitas, diretor do nosso Ginásio Diocesano de então. Patos ganhava para Cajazeiras um excelente mestre de Latim, História, Geografia e Francês. Isto no dia 1º de março de 1940. Posteriormente, o versátil professor especializou-se em História e Geografia, matérias em cujo ensino ficou famoso nas salas de aula do velho colégio. Oliveira considera-se com razão, pioneiro no ensino médio do Sertão da Paraíba, ao lado dos padres Vicente de Freitas, Fernando Gomes e Manoel Vieira.

Em 1962, com a transformação do Colégio Diocesano em Estadual passou Oliveira à categoria de professor do Estado, tendo sido aposentado em 1968 por tempo de serviço prestado.

O cidadão hoje aposentado já exerceu (de 1947 a 1964) o cargo de Adjunto de Promotor, de Vereador, tendo sido um dos fundadores do Colégio Comercial Roberto Simonsen (onde é secretário e catedrático de História) e do Centro de Assistência Social Cônego Machado (do qual foi o primeiro tesoureiro), entre outros importantes serviços que prestou à sociedade das Espinharas.

Estes e outros interessantes fatos de sua vida pacífica, conta-nos o professor Oliveira enquanto se balança no terraço de sua casa no bairro de Santo Antônio, oferecendo-nos um quadro típico, do repouso que se concede a um cidadão que tem a consciência do dever cumprido. Perguntado se é feliz, Oliveira sorri e responde “Como professor encontrei minha vocação definitiva. Além do mais, entre alguns milhares de jovens de quem fui professor deixei outro tanto de amigos francos, leais e atenciosos. Falei “ex-catedra” a várias gerações ávidas de patriotismo e idealismo” e ressalta: “entrei para o magistério sem recepções e saio sem os elogios de uma crônica colorida. “No entanto sempre gostou de dizer: “Ego sum qui sum” o homem vale pelo que é e não pelo gongorismo incensatório”. Eu ia ficando sem entender; ele indulgentemente explicou-me, sorriu, apertou-me a mão e viu-me sair enquanto voltava para os seus livros, seus jardins e suas alegres e tristes recordações. Pensei comigo: a isto se chama estar em paz, e realizado”.

Entre os cargos assumidos durante sua trajetória profissional assinalamos ainda a função de integrante do Instituto de Polícia Científica, cuja carteira de identificação trazia o número 48.426. Nas décadas de 70, 80 e 90, Professor Oliveira se dedicou aos livros e passou a contribuir de maneira decisiva com o resgate da história de Patos e da Paraíba, dividindo o seu tempo para as reflexões na rede sempre armada no terraço e a leitura e escrita na sua simples biblioteca. Enviuvou no dia 05 de maio de 1994 e faleceu em 18 de março de 1999, deixando cinco filhos: Wudenberg, Maria Auxiliadora, Eugênio, Reinildes e Ludenberg.

Um comentário sobre “Professor Oliveira

  1. Lacrimejam-me os olhos, ante a minha agudíssima sensibilidade, quando vêm à minha já conflagrada mente, as brilhantes aulas de Geografia transmitidas a todos nós componentes da Turma de (1947/1950) pelo eminente Mestre Manoel de Sousa Oliveira, àquela época, integrando o cintilante e luzidio Corpo Docente do “Ginásio Diocesano de Patos”, sob o comando diretivo do imensurável orador sacro Monsenhor Manoel Vieira, secundado, ainda, pelo poliglota Padre Joaquim Ferreira de Assis – Inspetor Federal do Ensino, daquela inesquecível e imorredoura Instituição educacional. Dali emergiu u´a multiplicidade de profissionais liberais, inclusive eu, na condição de Juiz de Direito, servindo ao Poder Judiciário do meu País, por mais de trinta nos.

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