Grupos Musicais


O surgimento dos primeiros conjuntos musicais da cidade de Patos deriva-se da Filarmônica 26 de Julho e recai sobre a iniciativa do saudoso Hermes Brandão que, em 1947 fundou a orquestra “Cruzeiro do Sul”, inspirado no maestro Severino Araújo, seu amigo do tempo em que serviu ao Exército, proprietário do Grupo Tabajara, um dos mais famosos da época em todo o Brasil com o qual chegou a tocar. O idealizador patoense, que nasceu no sítio Mocambo, herdou do pai que tocava clarinete o interesse pela música. No início de sua carreira tocou trompa e com o passar dos tempos passou a dominar soprano, tenor, clarinete, pistão e saxofone. Além de grande músico não chegara a integrar o fenômeno nacional por decisão própria, uma vez que chegou a ser convidado para acompanhar o Grupo Tabajara no Rio de Janeiro. Naquela época Patos contava apenas com o coral da professora Rosalina Coelho Lisboa, destinado à divulgação de músicas sacras. Na década de 50 a Orquestra Cruzeiro do Sul reinou absoluta em terras sertanejas e, somente por volta de 1959 é que surgiu o Conjunto do saudoso Vavá Brandão, irmão de Hermes e um dos integrantes do seu grupo. Entre os vocalistas estavam Amaury de Carvalho e Antônio de Pádua e na parte instrumental os destaques ficavam para Antônio Moreno, Antônio Emiliano, Chico Cabaré, Pedrinho e Aguinaldo Sátyro. Naquela época o grande espaço de divulgação da nova Banda era o Programa de Ramalho Silva, intitulado Festival da Cidade, apresentado no Cine Eldorado e transmitido pela Rádio Espinharas de Patos.

Influenciadas pelo Movimento de Jovem Guarda, que nasceu no Brasil na década de 60, algumas opções musicais foram surgindo na Capital do Sertão, entre as quais o grupo “Os Sátyros”, formado pelos irmãos: Agnaldo, Antônio, Betinha e Luzia, com poucos anos de duração. Uma dupla que também passou a animar os eventos sertanejos era denominada “Os Brasas” e contava na sua composição com Salvan Wanderley e Zacarias de Evaristo. Comandado por Lula Fragoso nasceu o “The Six Boys”, com duração de quatro anos, época em que se tornou a atração oficial do Hotel JK e tendo em sua formação inicial, além do fundador, Gil, Everaldo, Cabral, Marcone e, mais tarde, Nilson Batista. Depois foi a vez de Juca Viana criar “Os Selvagens”, dotado de uma estrutura considerável e que se depararia com um grande concorrente a partir do ano de 1967, momento em que era criado o conjunto “Os Jovens”, cuja primeira apresentação aconteceu no dia 12 de julho e que além dos irmãos idealizadores, Antônio de Pádua e Aguinaldo Sátyro, os quais atuavam respectivamente como contra-baixo e “crooner”, detinha em sua composição: Antônio Vieira (baterista), Salvan Wanderley (base) e Rodrigues (solo). Seria o único Grupo musical a permanecer na atividade a partir do ano seguinte.

Os Jovens constituiu uma das maiores representações musicais de Patos em outras localidades, a exemplo de João Pessoa, Recife e inúmeras outras cidades do Nordeste. Para concorrer com sua grande estrutura surgiria o conjunto VAZ-7, fruto da união dos músicos: Virgílio Trindade, Antônio Emiliano e Zito, com sete componentes ao todo. Mais tarde, com a saída de dois fundadores, a denominação passou a ser simplesmente Z-7, ou seja, o Z relacionado a Zito e o número em referência a quantidade de integrantes. A vida do grupo perduraria até 1975 enquanto “Os Jovens” seguiria por mais dez anos, até chegar a encerrar as atividades, por conta do destino da maioria dos seus componentes que se transferiu para outros centros, afim de continuar os estudos.

Muitos foram os músicos que marcaram época. Especificamente, da década de 60 e até os dias atuais o número tem crescido consideravelmente, o que se tornaria impossível fazer referência a cada um deles. Por esse motivo elegemos um dos principais, para através de uma narração de sua trajetória homenagear todos os que enveredaram por esse setor para, em conseqüência, elevar o nome da cidade de Patos. Assim sendo, nada mais justo do que uma referência ao grande Antônio Emiliano que nasceu em Patos, no dia 06 de janeiro de 1928 e faleceu em 05 de novembro de 1977.

Partindo de uma afirmação do jornalista, professor, músico, economista e historiador, Virgílio Trindade, que definia Antônio Emiliano de Figueiredo como sendo um homem de poucas letras e muito conhecimento; de pouco dinheiro e muitos amigos, de pouca vaidade e muito talento, tentaremos chegar a constituição de uma pessoa completa em termos de cultura: gênio no violão, na piada e na improvisação. “Como violonista reinou em Patos, Campina Grande, Recife, Natal e várias outras cidades nordestinas. Tinha conhecimento completo do instrumento e era, igualmente, bom em solo e acompanhamento. Arrancava elogios de todos e fez fama por onde passou. Certa vez, com Vavá e seu Conjunto, acompanhou Orlando Silva numa temporada por várias cidades e foi, abertamente, de maneira rasgada, elogiado pelo “Cantor das Multidões”. Com seu violão teve momentos importantes no rádio, participou, comigo, na Rádio Espinharas, do Programa Um Astro ao Vivo, respondendo pela parte musical e fez, sozinho um belo programa de solo de violão que era o lenitivo dos boêmios das noites patoenses. Trabalhou, também, na Rádio Borborema de Campina Grande, nas Rádios Clube e Tamandaré do Recife e na Poty de Natal. Como compositor fez sucesso com dezenas de músicas. Algumas foram gravadas em disco e, a maioria, na memória dos amigos. Nos festivais era a figura central: foi campeão com “Preto Velho José” e deixou sua marca eterna com “Patos dos Meus Tempos”, imortalizados em discos, pelas vozes de Saraiva e Cândida Maria, respectivamente. Convém destacar que a grande maioria de suas composições, principalmente as de solo de violão, ficaram perdidas no ar, por falta de quem as repetissem no instrumento. As conservadas na nossa memória são, justamente, as de letra e música, em virtude da facilidade de serem decoradas. Como piadista, era espirituoso e suas histórias engraçadas ainda correm, de boca em boca, alimentando a alegria e a saudade dos seus amigos. Aliás, é bom que se diga, as suas “tiradas” eram improvisações talentosas, nascidas do ressentimento do dia-a-dia. Ele não as fazia para ser engraçado ou para zombar dos outros. Tanto que, quase todas, retratavam as suas próprias desventuras. Era o meio que ele usava para desabafar. Exemplo: certa vez ele estava acertando com o pai de um seu aluno o preço de suas aulas de violão. Depois de tudo ajustado o cara, um ricaço, em tom humilhante, provocou este diálogo:

-Vou pagar, mas quero esse menino tocando La Comparcita em trinta dias!
Emiliano percebendo o sentido da colocação não fez por menos e respondeu a altura:
-Colega, tome seu dinheiro! Faz trinta anos que eu toco e ainda não sei tocar La Comparcita!…

Além de um artista genial, Emiliano era um homem correto e um amigo leal. Tanto que nunca soube alinhar a própria vida, mas sempre soube encaminhar para o bem, a vida dos outros. Respeitador e educado, certa vez evitou, com talento e delicadeza, um romance perigoso com a filha de um amigo nosso, que se apaixonou por ele. O pai nunca soube de nada e a moça acabou entendendo e agradecendo a sua atitude. Muitas outras ações, do mesmo valor, ele praticou, ao longo da vida. Afinal, como dizem os mais velhos, “só era ruim para si mesmo!”, relato de Vírgilio para Patos Empresarial de 1990, intitulado de “Os Dedos de Ouro”.

Mesmo com bagagem suficiente para galgar grandes espaços e conquistar a independência financeira, Emiliano sempre foi humilde, a partir de sua profissão de fotógrafo dos tradicionais monóculos e ampliações, mais tarde professor de violão que ensinou muitos dos nossos instrumentistas, a exemplo de Washington Lustosa e Pedro Cesário. Casado com a senhora Nilza, deixou os filhos: Toinho, Dinarte e Luciana.

A composição que imortalizou Antônio Emiliano, terceira colocada do primeiro festival realizado em Patos no ano de 1971, por pouco não acabou se transformando no hino oficial da cidade. A interpretação perfeita de Cândida ficaria para sempre na lembrança da Rainha Sertaneja. Vale relembrar a letra de outras composições destacáveis do referido autor:

Preto Velho José

Preto Velho José/ vive triste, solitário/ seu consolo neste mundo/ é contar o seu rosário/ pra vê se noutra vida/ ganha salvação/ porque neste mundo/ só ganhou ingratidão/ Trabalhou pra sinhô branco/ dia e noite sem cessar/ hoje velho, cansado/ sem forças pra trabalhar/ sinhô branco, indiferente/ não lhe dá nem atenção/ preto velho desse mundo/ só leva desilusão/ mas não cansa de pedir/ a Deus em oração/ que perdoe a sinhô branco/ e lhe dê a salvação.

Mensagem da Conceição

Bate o sino além/ chamando alguém à oração/ Esse alguém é o meu bem/que não tem coração/ Talvez que a mensagem/ da capela da Conceição/ por ser muito bela/ faça com que ela mude de opinião.

Sentimento de Amargura
Fiquei sabendo que a saudade/ é sentimento de amargura/ mas sei que a felicidade/ é uma onda de ternura/ O meu amor brigou comigo/ fiquei sofrendo é verdade/ mas logo após me deu abrigo/ e agora é só felicidade/ Não sei como é que pode/ tanta gente por ai sem ter amor/ se sem amor/ a vida é dissabor.

Oração de Boêmio

Falas-me de sono/ se tenho a eternidade pra dormir/ assim falou Omar Cayam/ quando um amigo convidou-o a sair/ de uma boa brincadeira/ de uma boa bebedeira/ da qual não quis desistir/ É prova que boêmio/ não obedece a horário/ ele não vai à igreja/ boêmio não usa rosário/ Onde houver cabrocha/ o luar e um violão/ ai está o boêmio/ fazendo samba a sua oração.

Brasil em disparada

Avante Brasil gigante/ há tua hora chegou/ do teu sono tão profundo/ veio alguém e despertou/ Vamos correndo, correndo/ caboclo forte e viril/ vamos lutar com a flor/ e abandonar o fuzil/ com amor ao trabalho/ vamos pra frente Brasil/ Os teus filhos acreditam/ em ti por que estais desperto/ há muito canto esse amor/ porém pregado em deserto/ há muito canto esse amor/ porém pregado em deserto/ mas Deus nos mandou um homem/ que te deu caminho certo/ Teremos transamazônica/ asfalto em todo o país/ e do analfabetismo/ vamos cortar a raiz/ participação nos lucros/ pra ver nosso povo feliz.

Revolta

É tarde, é muito tarde/ é tarde pra você voltar pra mim/ eu recusá-la é ingratidão/ mas aceitá-la é covardia/ não quero mais a sua companhia/ Quando muito eu lhe queria/ de mim você não gostava/ francamente você ria/ decerto quando eu chorava/ agora você está de volta/ por capricho de mulher/ é grande a minha revolta/ agora sou eu quem não lhe quer.

Vaidosa

Você que é vaidosa/ e tem a impressão/ que é dona do mundo/ prepare sua alma/ pra sofrer muita mágoa/ e um desgosto profundo/ Quando olhar no espelho/ e vê seu rostinho transfigurado/ vai chorar no futuro/ lamentando o presente/ recordando o passado/ Você agora/ é linda flor em botão/ futuramente será/ uma flor murcha caída no chão/ então verá claramente/ pra você tudo acabado/ vai chorar no futuro/ lamentando o presente/ recordando o passado.

Ave sem ninho

Quantos dissabores por você eu já sofri/ todo direito de amar perdi/ Não tenho lar, um carinho/ onde possa por fim repousar/ sou uma ave sem ninho/ que pousa em qualquer lugar/ Francamente oh! Querida/ já não pude suportar/ ocultei a minha mágoa/ por fim tive que confessar/ peço que não censure o meu modo de dizer/ que sofrer assim dessa maneira/ é vegetar não é viver.

Voltando à retrospectiva da música patoense, vale registrar que poucos são os arquivos de outros grupos que, por curtas épocas, compuseram o cenário musical de Patos. Vale, porém, relembrar o Flor do Prado, Ataulfo Alves, Black Samba, Raios e a Banda Flor da Pele que levou o nome das Espinharas a lugares cada vez mais distantes e importantes do cenário brasileiro, dentro do seu gênero chegando a se destacar como o melhor grupo musical da Paraíba e se enquadrando entre os 10 principais do Brasil. Idealizado pelo empresário Jairo Dias, o grupo musical surgiu em 1990, através de uma parceria com amigos músicos e compositores, entre os quais: Lela, Iran, Lodinho e Assis da Embratel, com a denominação de “Baile”. O primeiro CD foi lançado em 1996 e obteve a melhor aceitação do público, motivo pelo qual outros vieram sucedê-lo, sempre repetindo o sucesso, chegando a receber o reconhecimento de todo o Nordeste, Capital Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás, Tocantins, entre outros, onde realizou shows permanentes. Por outro lado, a Banda Flor da Pele fez várias apresentações em rede nacional, através de programas do SBT, Record e TV Diário do Ceará. Vale salientar que o referido grupo musical já chegou a ser responsável pelo emprego indireto de cerca de 150 pessoas, ao ponto em que demonstrava uma certa insatisfação com relação aos promotores de eventos da Paraíba, que chegam a desconhecer a grande importância da prata da casa, o que não ocorre em outros centros brasileiros. Reclamou, também e com toda razão, o pouco espaço obtido nos meios de comunicação do Estado, a exemplo de rádios, jornais e revistas, que nem sempre abrem espaços para a divulgação dos nossos valores. Levando a efeito uma técnica extremamente profissional, a Banda Flor da Pele sempre foi responsável por um dos shows mais produzidos de todo o Brasil e os recursos gerados sempre foram aplicados na cidade de Patos, através dos empreendimentos do seu proprietário, sem falar na geração de emprego e renda.

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